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Madrugada. 
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Data de registro: Dom Nov 16, 2008 4:53 pm
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Localização: Incerta
Mensagem Madrugada.
Tema: Essencialmente romance, drama e melancolia. Mistério a critério do leitor.

PS: quaisquer semelhanças com a autora são meras(será?) coincidências.
PS²: Existe um final alternativo "feliz" para este conto, caso alguém queira ver.

___________

Madrugada.

Constantemente eu sorria sem motivo algum, e então desconfiavam se eu não seria louca. Louca não, eu pensava, livre! E saia correndo entre as laranjeiras, pois havia muitas naquela época. E eu sorria, sorria nessa simplicidade da vida que é a infância com meus vestidinhos bordados e um sonho impossível que todos têm um dia.
Hoje não, ninguém reconhece nas fotos antigas essa criatura de olhos cansados, essas mãos tão fracas e esse jeito sem-graça. Sem-graça mesmo, mas tão sem-graça que nem me notam, eu poderia usar um vestido escandaloso rosa que no máximo veriam a cor e esqueceriam o rosto minutos depois. Acho que quando passei a rarear nos lugares mais vivos de minha infância fui começando a ficar assim, triste. É que aquelas matas e árvores eram minhas únicas companheiras.
Agora fico assim, sentada a olhar pela janela a paisagem triste que se desfaz em noite. Com uma esperança absurda de que... De que aconteça algo. Algo como meu grande amor voltar, voltar de não-sei-onde que se perdeu. Pois só pode ter se perdido já que fez a mim tantas juras. E queria encontrá-lo outra vez, só para vê-lo, nem que fosse de longe, só para saber que ainda vive...
Porém, minto. Pois se o observasse de longe, quereria eu vê-lo mais perto, e mais perto até sentir sempre sua respiração perto de mim e abraçá-lo sem nunca mais largá-lo de minha vida. Sem deixar que me abandonasse outra vez. Pois assim é o ser humano...
Mas já que não voltas, eu canto. Canto porque sou extremamente sensível e intensa, e é assim que demonstro a maior parte de minha angústia, cantando para a casa vazia nessa minha voz rouca e morta. Assim vou vendo todos os cômodos perfeitamente organizados, os quais vão escurecendo comigo para a noite insone e mais uma vez mergulho em meus delírios de sua volta, terminando em lágrimas ardentes de corpo e alma que me matam aos poucos.
Livre não! Penso. Sou mesmo é louca, louca de ódio de mim mesma que não consigo fazer nada permanecer, até mesmo meu único amor deve ter cansado de mim e resolveu sem palavras ir. Ir atrás de qualquer coisa mais tangível. Mas sou tão louca que se, um dia, eu fosse embora ao invés dele, ele notaria a ausência de minha dedicação. Sou tão louca que já fiz, por amor, coisas absurdas para as mentes humanas. E sou tão louca que fico meditando sobre tudo isso como se fosse chegar a alguma resposta.
Agora, com esse meu vestido de cetim prateado, até pareço um defunto, um lindo e triste defunto que vai tomando aos golinhos um vinho adocicado e ardente que desce pela garganta deixando um sabor mais intenso no fim, pensando inconscientemente em morte. Quero hoje ir perdendo a lucidez aos poucos, devagarzinho para notar uma coisa ou outra de cada vez. E há muita coisa para notar, que a gente só percebe porque parou um minuto dessa correria da vida. E parou por quê? Só para entristecer mesmo, a rotina faz-nos ver os problemas da maneira mais distante possível.
Quando paramos, mas paramos mesmo, é que notamos quanta coisa mudou, quanta coisa temos ou perdemos. Já que só damos valor ao que perdemos, e isso já está todo mundo cansado de saber, mas se realmente compreendessem... Depois de anos é que vão notar, “Poxa, eu tinha uma visão tão boa...” E eu tenho um amado tão precioso...
Aos poucos sinto efeito do vinho quente que desliza em minha garganta, agora sim está ficando tudo escuro junto comigo, porque sozinha, não gosto. Já tive que fazer tanta coisa sozinha que agora já mal suporto. Tenho uma carência que vem de algum ponto escuro de mim e não consigo me distrair disso.
Revolto-me, pois nunca soube falá-lo tantas coisas por puro medo de perdê-lo, e amo-o demais, e por amar demais, também já sofri demais, pois tudo em mim é intenso. Eu não fico alegre, fico em êxtase, e não fico triste, fico depressiva, não odeio, abomino, não amo, adoro. E quase todos os dias eu repito a mim essas mesmas coisas e chego a me ferir só para sentir que ainda existo. É que sem ele por perto quase parece que não existo.
Pelo efeito da bebida vou gargalhando, gargalhando na escuridão que me envolve feito água, sempre odiei grandes lugares com água, são como a escuridão... Acendo a luz cambaleante. E as coisas vão tomando formas mais lúcidas ainda que um pouco embaçadas na minha visão, a garrafa já quase seca. E na minha visão começo a ver os delírios do meu inconsciente, ele voltou! É tão claro que já clareia a minha alma, e tão absurdo que me faz cair no carpete vermelho que até onde eu conseguia lembrar não era vermelho. Não era ele.
Levanto devagar e sinto que quebrei a taça na minha mão, dou um sorriso constrangedor para o vazio ou seja lá o que for que meus olhos encharcados não conseguem mais ver. Caminho até o banheiro e lavo as mãos sentindo o arder da água pelos cortes. Pergunto-me se eu não mandei embora sem querer, é sempre assim, o dia inteiro, a noite inteira de pensamentos mergulhados em ora paixão, ora saudades. Exceto as raras horas nas quais eu me distraio sem querer. Não se entende um amor intenso como o meu, não se entende, só se vive. Volto para o sofá e deixo-me cair nele.
Eu poderia comparar, sendo quase como uma poetisa, os seus olhos ou sorriso as coisas mais belas do mundo, mas sinto que não é nada possível para minhas mãos fracas e desprovidas de talento, mesmo que eu conhecesse as belezas mais impressionantes do mundo, não há nada que se possa comparar a minha felicidade ao vê-lo simplesmente feliz.
Não faça assim comigo, penso bêbada, e por estar bêbada percebo mais do que lúcida, não sabia que as cortinas eram tão escuras, ou que os sofás tinham um detalhe estampado de lírios em determinada parte. Lírios são as minhas flores favoritas, mas ele não sabia disso. Na verdade, hoje me pergunto o quanto ele sabia sobre mim. Será que sabia? Isso não importa realmente. Acho. Mas às vezes ele sabia sem estar por perto que eu não estava bem. Outras vezes não, vezes nas quais eu me arrasava num grito mudo, e me isolava do mundo. Pois, como já disse, sou intensa. Entrego-me a desorientação sabendo que isso me deixa insegura. Ele não, ele é determinado e decidido. Eu gravo cada detalhe. E ele é orgulhoso. De onde vem tanto orgulho, meu Deus? Eu me perguntava algumas vezes.
Não sei o que tem nessa droga de líquido que ainda não me fez apagar, tudo parece querer que eu sinta cada dor com a certeza de que é existente. Mas não basta ter a frente todas as possibilidades terríveis as quais minha mente é capaz de ter em relação a ele? Nunca foi de dar satisfações, eu tentava não me importar muito para isso, tentava.
Essa lua zomba de mim, até hoje ela zomba. Está sempre rindo, sabe algo que eu ainda não sei. Sim, ela sabe. Lua crescente. E o céu está límpido como uma noite alegre de um quadro famoso que se contrasta com a solidão de um homem sozinho a pintá-lo. É madrugada.
É madrugada, mas escuto uma batida na porta. Bêbada como estou nem mesmo me importo em ir atender, deitada no sofá com os olhos já ardentes, vermelhos e sonolentos. Mas a batida continua tão perturbadoramente que resolvo atender quase a cair pelos cômodos. Abro a porta e não vejo nada ali. Preguei uma peça em mim mesma? Essa esperança tão absurda me faz derramar em mais lágrimas dificultando mais ainda minha visão. Que droga, não chore.
Porém, eu reconheço um par de olhos tão queridos e ansiados que sorrio de verdade agora, um brilhante sorriso derramado em meu rosto. Seria mesmo? Mesmo? Sim, só poderia ser, pois amigo nenhum meu viria tão tarde por mim. Aliás, eu nunca tenho amigos por perto. Quanto tempo eu não esperei por sua volta? Mas não vejo vontade alguma de reclamar. Só consigo abraçá-lo, sentindo sua respiração e esperando que seja mesmo verdade e não um delírio qualquer em minha mente cruel.
E, lentamente, no caminhar dos tempos noturnos, caio, e por ele sou carregada até um lugar mais confortável, tento abrir os olhos, mas já estão pesados demais pelo sono, porém sinto cada detalhe familiar de seus cuidados e preocupações, até ir me acalmando sem forças e apagar. Metade incerta, se é que isso é possível.
Acordo com a luz do dia ainda fraca, e com a cabeça latejante. Só consigo, ao levantar, cair no carpete da sala. Ah meu Deus, por que eu me firo? Fico sussurrando perturbadoramente, mais uma vez, das loucuras que ainda me restarem. Não era ele, não era.


Sáb Fev 07, 2009 11:33 pm
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Data de registro: Qui Jan 22, 2009 6:18 pm
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Mensagem Re: Madrugada.
Waa! Ama! Você escreve tão bem. Eu tenho algumas idéias para escever mas... acho que não ia dar muito certo por falta de começo... mas eu já sei o meio e final. Ò.Ó

Provavelmente você lê bastante para conseguir escrever com esse vocabulário, não?


Dom Fev 08, 2009 11:01 am
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Mensagem Re: Madrugada.
Kanna escreveu:
Provavelmente você lê bastante para conseguir escrever com esse vocabulário, não?
Obviamente.


Dom Fev 08, 2009 1:26 pm
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Data de registro: Dom Nov 16, 2008 4:53 pm
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Mensagem Re: Madrugada.
Kanna escreveu:
Provavelmente você lê bastante para conseguir escrever com esse vocabulário, não?

desde pirralha o-o e ja conseguir prêmios só por ler.
obrigada :3


Dom Fev 08, 2009 2:07 pm
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Data de registro: Qui Jan 22, 2009 6:18 pm
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Mensagem Re: Madrugada.
Nada! (^_^;)

Eu leio, bastante, mas não escrevo assim por falta de vontade. Ò.Ó


Dom Fev 08, 2009 2:35 pm
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Mensagem Re: Madrugada.
Amei a fic. É só isso o que eu tenho á dizer u_u tá, eu não vou aguentar dizer só isso, então vamos lá... Eu quero ler o final alternativo feliz, apesar de eu amar histórias melosas e dramáticas como esta *__*/ Ah, eu sou mesmo uma drama-maníaca u_u'' e eu sabia que quando fosse ler essa sua fic não ia conseguir parar até terminar >o> dito e feito! Você escreve muito bem @_@ e apesar de serem sempre os mesmos personagens, a história deles é tão empolgante, que eu não me importo de até os nomes serem os mesmos! :3


Seg Fev 09, 2009 4:34 pm
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Mensagem Re: Madrugada.
MIMIMI *-* Linda como sempre ama,que escrita linda u_u
Também queria ver o final alternativo. Amei mesmo..


Qua Fev 25, 2009 11:24 am
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Data de registro: Dom Nov 16, 2008 4:53 pm
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Mensagem Re: Madrugada.
ah é... o final alternativo ._.
Formatação do pc, e la se foi embora meu conto junto com esse final e_e'


Qui Mar 05, 2009 8:30 pm
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Data de registro: Sex Fev 27, 2009 3:40 pm
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Localização: Campo Grande ~ MS // Santuário de Athena (Lost) // Aqui. xD
Mensagem Re: Madrugada.
Assino em baixo o que disseram. Linda mesmo a fanfic. Narrativas em Primeira Pessoa é sempre um ponto interessante em uma história. Principalmente se essa história for de vida, de amor e etc... Gostei da forma como abordou seus sentimentos. Ah.. a eterna batalha de nossos corações quebrantados por um amor perdido. Ou nem tanto assim...

Belo texto, excelente escrita, livrou-se de muitos vícios. Parabéns. ^^


Sex Mar 06, 2009 3:52 pm
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Data de registro: Sáb Nov 15, 2008 2:16 pm
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---------
Mensagem Re: Madrugada.
Ama escreveu:
ah é... o final alternativo ._.
Formatação do pc, e la se foi embora meu conto junto com esse final e_e'
OH NOES! *dies* Ugh... eu queria ler o final alternativo ;o;'' quem sabe em um dia muito tedioso seu você não refaça? >XD


Seg Mar 09, 2009 3:18 pm
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