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Sorria Escuro 
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Data de registro: Dom Nov 16, 2008 4:53 pm
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Mensagem Sorria Escuro
• Drama{eu vou variar um dia, vocês vão ver!}

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Sorria Escuro.

Estava abafado, era quase noite. Já se via o sol sumir na linha infinita do horizonte. Está ficando tarde, pensei. Não sei quanto tempo aquele homem estava ali esperando, talvez, um ônibus. Cheguei depois e já estava inquieta, roendo as unhas, passando a mão no vestido para limpar o nada. Ele não, ele parecia paciente.
– Calor, não é? – Eu disse, tentando começar uma conversa. Parece ser quase sempre assim que resolvemos iniciar algo: reclamando.
– Um pouco, - Respondeu ele – Acho que vai chover. – Completou sorrindo, segurava nos braços um bebê que não parecia ter mais de um ano de idade.
– Também acho. – Concordei retribuindo o sorriso. Ele tinha uns olhos tão vivos e verdes, mas uma aparência cansada, quase morta. Nunca vi combinação mais estranha. Sorriu de novo, não sei por quê. Afinal, o que havia de tão feliz nesse assunto? Parecia ser assim com quem lhe falasse, sorridente. Mas estava sério quando cheguei.
– Sua filha? – Perguntei apontando à pequena criança envolta por um manto rosa, tossia algumas vezes.
– Sim, está doente... Mas vai ficar boa. Vai ficar boa. – Respondeu, repetindo as palavras e tentando convencer a si mesmo. Vai ficar boa, pensei, tinha que ficar boa. Quis convencer-me também, mas a verdade é que eu não estava ligando muito, só queria envolver-me um pouco na preocupação que ele sentia. Não consegui. Estava impaciente. Que demora a desse ônibus! Agora era tarde, já havia começado a conversa, era meu dever moral continuar.
– Ela é muito bonita – Continuei – E a mãe?
– Ela morreu... Também era muito bonita... – Respondeu de uma vez. Atingida de repente desviei o olhar, arrependida, para qualquer direção que me distraísse, em vão. Morta. E ele sorria, por quê? O quanto teria sofrido? E eu aqui reclamando do emprego, da dependência dos pais, do ônibus, do calor.
– Sinto muito... – Foi só no que eu pensei em falar, que estúpido. Ele fez um gesto, que eu não me importasse, estava tudo bem. Ou parecia estar. Vi a primeira estrela cintilar no céu. Mas que demora...!
Estávamos sentados lado a lado, o bebê começou a tossir mais, ele se levantou e o ninou, cantando baixinho, talvez para acalmar a si mesmo também. Não havia muitos passantes nessa hora, a noite ia se alongando, enlaçando os prédios, as ruas em sua negridão dançante, sorrateira. A lua, como a pérola branca da noite, destacava-se cheia. Ele resolveu falar, quase sorrindo:
– Tinha uns olhos assim, vivos como os dela. Adorava cantar, adorava... – Emudeceu envolvendo-se nas lembranças. Não, o ruim não é a perca, pensei, é a memória. Seus olhos é que são vivos, esmeraldas, tive vontade de dizer, mas não disse por invenção minha. Teria dito caso houvesse outro momento como aquele, mas não houve. Os olhos... Tamanha vida... Seriam por ela? Não importava, ele continuou a falar:
– Lembro-me... Ela me perguntava “Como me suporta, querido?”, sorrindo sempre. “Não preciso suportar,” respondia, “não há nada que eu precise suportar em você, pois eu te amo, ouviu bem? Eu te amo!” – Falava como se a estivesse vendo nesse momento. Lá estava ele detalhando sua vida para uma total desconhecida. Sorria. Incomodava muito esse sorriso. Muito. Aquela criança em seus braços parecia ser a única esperança que lhe restava. Ele estava certo em se preocupar, sua esperança estava doente.
– Você gostou muito dela... – Eu disse, só para não manter o silêncio. Claro que ele gostou! Que pergunta! Concordou com um gesto, contava tudo como se ela ainda vivesse. De fato, um pedaço dela vivia.
De repente, senti-me um pouco enciumada... Mas como poderia? Só o conhecia há alguns minutos e já estava mais envolvida do que desejei no início? Essa minha ânsia de encontrar alguém. Esse alguém nunca certo.
A criança começou a chorar e tossir mais, constante e fortemente. Fiz uma oração em silêncio, e nem sou religiosa, mas pedi: Deus, se você existe mesmo, faça esse bebê ficar saudável, por favor, por ele. Nunca te pedi nada... por favor.
Ele sussurrava canções de ninar para sua filha, uma voz tão doce, baixa. Uma voz assim, como o voar de uma borboleta que pousa delicada em sua flor. Repentinamente, a filha parou de tossir.
- Dormiu? – Perguntei observando-o, balançou positivamente a cabeça com um meio-sorriso, incompleto como minha vida em meus vinte e poucos anos não feitos para mim. Lembrei-me da minha infância. “Corre menina, vamos! Vai chegar atrasada.”, minha mãe dizia. Creio que assim criou-se a minha impaciência. Estou sempre atrasada ao final de tudo.
Vi algo reluzir no rosto dele. Uma lágrima reluzia passante em sua face. Cena triste parecendo uma tela inacabada de algum artista embriagado. Embriagado de ilusão: Um homem olha para a criança em seus braços, serena, com um meio sorriso sob a luz fraca do fim da tarde e das primeiras estrelas, ao seu lado, um vulto: eu, a sombra observante. Inquietante.
Quis consolá-lo, mas não o fiz, era uma estranha. Mas quantas vidas mudariam se os estranhos participassem mais do mundo? Ele voltou a sentar-se afagando a criança com ternura. Estranho, pensei, estaria mesmo esperando condução? Teria para onde ir? Era o que perguntava a meu coração, mas sem coragem de ir além dele.
Quando percebi, nossos olhos haviam se encontrado, senti o mestiço de tristeza e alívio irradiar dos dele, esses olhos tão vivos... As estrelas, a lua, as luzes fracas, tudo cenário perfeito, perfeito. Mas havia uma criança, havia um passado, havia um coração fragmentado pelo mundo. Estava com medo de fazer o mais leve movimento e estragar aquele momento. Ficamos parados pelo que pareceu uma eternidade. O momento durou eternamente, na minha vida pelo menos.
Ouvi então um som de um veículo. Mas logo naquele momento? Ah destino... Fiquei sem saber se me levantava e ia embora ou ficava a apreciar aquele sorriso. E agora? Não fiz nada, ele quem despertou-nos daquela dormência que tinha se estabelecido:
- Deve ser seu ônibus. - Disse sorrindo e aconchegando o bebê em seus braços. Eu assenti decepcionada. Tenho que parar de me iludir com corações partidos, mas meu coração não anda ajudando, na verdade ele nunca ajudou. Levantei. Queria que ele parasse de sorrir, sei que não era alegria que ele sentia então, para quê? Lancei um último olhar para a criança, dormia? Os olhos tão cerrados... Ah Deus, tanto que pedi!
Desviei o olhar e entrei no ônibus, vi os olhos dele mais uma vez. Aquele brilho havia fugido por completo. Seus olhos eram agora duas esmeraldas despedaçadas, imundas. Ele fitava a criança. Se eu ao menos tivesse ficado...
Como se adivinhasse meus pensamentos olhou para mim sorrindo novamente, o brilho dos olhos dissolvendo-se em lágrimas. Um riso triste enquanto eu me distanciava. Acenou. “Adeus!” Pensei, agora deixo novamente mais uma chance de ser feliz. Chorei. Porque nunca teria entendido o sorriso se não visse a sua ultima expressão de dor. Sorrir era uma maneira de fazer com que tudo não parecesse tão terrível.


Sex Jan 09, 2009 4:26 pm
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Data de registro: Sáb Jan 03, 2009 4:03 pm
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Mensagem Re: Sorria Escuro
Nyaa, eu gostei, sim *-* Só pela sua escrita a história fica perfeita huahsuahsuahsuah xD
To brincando... Mas eu achei interessante, adoraria ler a continuação ^^b


Sex Jan 09, 2009 10:57 pm
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Data de registro: Dom Nov 16, 2008 4:53 pm
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Mensagem Re: Sorria Escuro
pronto, coloquei o resto.


Sáb Jan 10, 2009 3:15 pm
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Data de registro: Sáb Jan 03, 2009 4:03 pm
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Mensagem Re: Sorria Escuro
Nossa, que lindoo *-* Gosto de jeito que você explora as personagens ^^ Eu me sinto como se estivesse lá, naquela cena, naquele momento, quase como que se fosse a própria personagem *-*'


Sáb Jan 10, 2009 4:01 pm
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Data de registro: Qua Jan 07, 2009 7:03 pm
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Mensagem Re: Sorria Escuro
unhappygirl escreveu:
Nossa, que lindoo *-* Gosto de jeito que você explora as personagens ^^ Eu me sinto como se estivesse lá, naquela cena, naquele momento, quase como que se fosse a própria personagem *-*'


I agree².
Seu jeito de descrever a situação é incrivel. Eu realmente queria escrever assim. Inveja. ii'
E...
Não saia dos dramas não, seus dramas são tão bonitos. *-*"


Sáb Jan 10, 2009 11:11 pm
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Data de registro: Sáb Nov 15, 2008 2:16 pm
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Mensagem Re: Sorria Escuro
OMG~ Que história linda *____*~ triste, muito triste. Mas com uma moral tão bonita! <3 Sorria para afastar as suas preocupações! Simplesmente sorria. Nem que isso seja uma grande mentira... que lindo ;o; [será que você quis dizer isso mesmo? *dies*] Arg, seus contos são a coisa mais linda que eu ja li u___u


Ter Jan 13, 2009 2:08 pm
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Data de registro: Dom Nov 16, 2008 4:53 pm
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Mensagem Re: Sorria Escuro
Foi isso mesmo que eu quis dizer xD


Dom Jan 25, 2009 8:30 pm
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Data de registro: Qua Dez 03, 2008 11:29 am
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Mensagem Re: Sorria Escuro
OMG! que coisa lindaaaa,meu deus amei.Triste mais lindo,tem realmente uma moral linda.Perfeitooo ama :3


Qui Jan 29, 2009 1:41 pm
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Data de registro: Qui Mar 26, 2009 7:53 pm
Mensagens: 27
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Mensagem Re: Sorria Escuro
Mais uma Vez. Meus parabens !


Sex Mar 27, 2009 3:59 pm
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